RESENHA POLÍTICA- MEMÓRIA O brasileiro parece estar desenvolvendo uma espécie de imunidade aos escândalos. Não porque tenha deixado de se incomodar

 RESENHA POLÍTICA- POR ROBSON OLIVEIRA



ALIANÇA
A eleição para o Senado começa a revelar uma curiosa regra da política de Rondônia: no discurso, cada partido cuida do seu projeto; na urna, cada candidato cuida do próprio pescoço. O presidente da federação que reúne União Brasil e PP, deputado Maurício Carvalho, teria se reunido com parte do staff da coordenação da campanha de Adailton Fúria, especialmente candidatos a deputado federal e estadual do PSD, e fechado um acordo para que esses candidatos peçam também o segundo voto para o Senado em Mariana Carvalho.
AVANÇO
O detalhe é relevante: o PSD registrou apenas Luís Fernando para a disputa ao Senado. Ainda assim, os candidatos proporcionais da legenda passaram a ter Mariana como opção de segundo voto. Um acordo feito, prego batido.
É uma espécie de aliança branca: formalmente, Mariana não está no arco eleitoral do PSD; informalmente, passa a circular dentro dele. E, numa eleição para o Senado, onde cada voto vale ouro, isso está longe de ser irrelevante.
INCONGRUÊNCIA
A família Carvalho, ao mesmo tempo, continuará pedindo votos para Hildon Chaves na disputa pelo Governo. Ou seja: pode-se votar no candidato a governador de um grupo e, na mesma caminhada, pedir votos para um senador de outro. A política moderna descobriu que coerência partidária é uma bela virtude - desde que não atrapalhe a contagem dos votos. E não há propriamente escândalo nisso.
PRECEDENTES
Outros acordos semelhantes já surgiram na eleição senatorial. Afinal, os candidatos ao Senado disputam uma eleição própria, com dois votos por eleitor e vários nomes competitivos. Obrigar cada candidatura a permanecer confinada aos limites de sua coligação seria quase uma forma elegante de cometer suicídio eleitoral.
INTERESSES
A aparente incongruência pode até parecer traição aos olhos de quem ainda imagina partidos funcionando como blocos monolíticos. Mas a eleição para o Senado é outra conversa. Há interesses cruzados, alianças circunstanciais e uma matemática eleitoral que costuma ser mais poderosa que qualquer resolução partidária. Quando Léo Moraes anunciou apoio a Silvia Cristina, por coincidência candidata pela mesma Federação de Marina, abordei o acordo da mesma forma .
SOBREVIVÊNCIA
Cada candidato precisa buscar votos onde eles estiverem. E, à medida que a eleição for afunilando, a tendência é que os compromissos coletivos percam espaço para a sobrevivência individual. Primeiro vêm as alianças. Depois, as conveniências. No fim, cada qual por si. E Deus por nós.
EXPLICAÇÃO
Finalmente Hildon Chaves resolveu falar sobre aquilo que já havia virado assunto obrigatório nos bastidores: seu desempenho desastroso nos debates. E quando um político demora a explicar o inexplicável, a imaginação alheia costuma trabalhar em regime de hora extra. Nos últimos dias, circularam as mais variadas versões para justificar as divagações do candidato.
HUMOR
Como sempre acontece na política, a história começava pequena, passava por três bocas e terminava como diagnóstico médico. Cada contador acrescentava um ponto - e, ao final, já havia quem soubesse mais sobre a saúde de Hildon do que o próprio Hildon. Ontem, em entrevista ao jornalista Juan Pantoja, do Eu Ideal, veio a explicação. Perguntado sobre sua saúde e sobre o desempenho nos debates, Hildon reconheceu que se enrolou. Atribuiu a falta de concentração a possíveis reflexos dos vários episódios de Covid que enfrentou. Mas fez isso à sua maneira: com humor.
TIOZÃO
Riu do próprio desempenho, descartou as especulações que surgiram nos bastidores e afirmou estar bem da cabeça. Disse apenas que virou um “tiozão”, com as limitações naturais da idade - embora, segundo ele próprio, a libido continue em alta. A política, às vezes, produz momentos que nem o marqueteiro mais criativo conseguiria escrever.
FOFOCA
A entrevista apresentou um Hildon aparentemente mais leve, bem-humorado e muito diferente daquele candidato que, nos debates da semana, parecia perder o fio da meada justamente quando mais precisava encontrá-lo. A explicação não apaga o mau desempenho. Mas ajuda a separar fato de fofoca. E isso, em campanha eleitoral, já é alguma coisa. Hildon também deixou claro que não pretende abandonar a disputa. Ao contrário: disse estar cada dia mais animado.
LAPSOS
Resta agora transformar esse ânimo em desempenho. Porque eleição não se ganha nos bastidores, muito menos na roda de fofocas. E debate, infelizmente para os candidatos, não perdoa lapsos: a televisão registra tudo, inclusive quando a memória decide tirar férias. Hildon explicou o que aconteceu. Agora precisa mostrar, no próximo debate, que aquilo foi apenas um tropeço - e não o novo padrão. Se não melhorar o desempenho não sobreviverá ao último debate.
CRISES
Há uma semelhança incômoda entre o que acontece no PSB e no MDB de Rondônia: os dois partidos conseguiram transformar a eleição, que deveria ser uma disputa contra adversários, numa guerra civil contra si mesmos. No PSB, a direção nacional entrou em campo para criar obstáculos à candidatura de Samuel Costa, depois de o próprio partido ter construído e referendado seu projeto eleitoral. A intervenção nacional abriu uma crise que deixou os bastidores e ganhou as ruas, os documentos partidários e até o Judiciário. Embora no TRE tenha conseguido vencer a máquina burocratas.
 
AUTOFAGIA
No MDB, a história é menos barulhenta, mas não menos reveladora. A candidatura de Pedro Abib nasceu sem conseguir reunir o entusiasmo necessário dentro da própria legenda. A desistência de Confúcio Moura da disputa deixou o partido ainda mais exposto, enquanto divergências internas passaram a colocar em dúvida a capacidade do candidato de reunir uma base política competitiva.
Eis o fenômeno que esta coluna chama de autofagia partidária.
 
IMAGEM
Partidos que deveriam apresentar ao eleitor uma candidatura e uma ideia preferem primeiro discutir entre si quem tem o direito de existir. O MDB produziu uma imagem de unidade em sua convenção. Mas há fotografias que congelam apenas o instante e não revelam o movimento das águas profundas. Nos bastidores, as divergências envolvendo seus principais atores expõem uma legenda mais preocupada em administrar suas próprias contradições do que em apresentar ao eleitor uma alternativa eleitoral convincente. O PSB fez algo parecido, só que com mais barulho.
 
AO PONTO
A direção nacional decidiu que a candidatura própria não interessava e tentou reorganizar o tabuleiro de cima para baixo. O resultado foi transformar Samuel Costa, que deveria estar gastando sola de sapato contra os adversários, em candidato ocupado em defender a própria existência política. É uma situação quase surreal: o candidato precisa fazer campanha contra o próprio partido antes de começar a campanha contra os outros. E aqui está o ponto central.
 
CANOA FURADA
Uma candidatura que precisa convencer seus próprios correligionários de que é viável e não consegue fazê-lo terá enorme dificuldade para convencer o eleitor de que merece o voto. Política também é percepção de força. Ninguém se dispõe facilmente a embarcar num projeto que a própria tripulação passa o tempo inteiro tentando abandonar a canoa. MDB e PSB enfrentam, cada um à sua maneira, esse mesmo problema. Um não conseguiu transformar sua candidatura ao governo numa força interna suficientemente coesa. O outro transformou uma candidatura em conflito institucional. Em ambos os casos, a mensagem que chega ao eleitor é péssima: se eles não acreditam suficientemente no próprio projeto, por que o eleitor deveria acreditar?
 
PARIDADE
A autofagia tem ainda uma segunda camada, menos nobre e muito mais objetiva: dinheiro, estrutura, tempo de televisão e o quinhão do Fundo Eleitoral. É aí que o discurso ideológico costuma perder a solenidade. O Fundo Eleitoral é abastecido com dinheiro público. Portanto, deveria servir para garantir condições minimamente equilibradas de competição, e não para transformar direções partidárias em donas de cofres que distribuem recursos conforme conveniências, alianças ou acordos de cúpula.
 
GRANA
A distribuição desses recursos deveria obedecer a critérios que permitissem aos candidatos disputar em condições minimamente próximas da igualdade. Afinal, quando o dinheiro é público, a democracia não deveria ser tratada como propriedade privada dos caciques partidários. Quando o dinheiro público destinado à democracia passa a ser instrumento de disputa interna, a política se aproxima de uma tragédia antiga: os personagens já não percebem que, enquanto se ferem mutuamente, o incêndio avança sobre o próprio palco.
 
DATAFOLHA
A primeira pesquisa nacional do Datafolha para a sucessão presidencial, divulgada ontem e registrada na Justiça Eleitoral sob o número [Registro na Justiça eleitoral sob protocolo BR- 03669- 2026], confirma uma impressão que o país carrega há quatro anos: o Brasil continua eleitoralmente dividido entre lulistas e antilulistas.
RETRATO
O empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora com o presidente aparecendo dois dígitos à frente, produz uma fotografia muito semelhante à de 2022, quando Lula enfrentou e venceu Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Mudam os personagens, permanecem as trincheiras.
CENÁRIO
Ao que tudo indica, este será o roteiro da eleição até o segundo turno. Salvo algum fato catastrófico - daqueles capazes de virar uma campanha de cabeça para baixo - cada nova pesquisa deverá produzir algumas horas de euforia para um lado, desespero para o outro e uma infinidade de análises definitivas que durarão até a próxima pesquisa.
CONTAMINAÇÃO
Havia, nesta pesquisa, uma expectativa adicional: saber se os sucessivos escândalos envolvendo figuras importantes da Suprema Corte teriam contaminado o humor do eleitorado. Não contaminaram de maneira significativa. E talvez aí esteja uma das conclusões mais preocupantes da pesquisa.
MEMÓRIA
O brasileiro parece estar desenvolvendo uma espécie de imunidade aos escândalos. Não porque tenha deixado de se incomodar, mas porque a sucessão deles é tão grande que um escândalo já chega com prazo de validade. Hoje provoca indignação; amanhã surge outro; depois de amanhã, o anterior já foi empurrado para o arquivo morto da memória nacional.
PIORA
O fenômeno atravessa ideologias. Direita, esquerda, lulistas, bolsonaristas e os que não querem ser nenhum dos dois podem até discordar de quase tudo. Mas a descrença nas instituições é democrática - infelizmente, no pior sentido da palavra. Quem está pagando essa conta são as próprias instituições. A cada episódio, a confiança diminui, a percepção pública piora e a distância entre cidadão e poder aumenta. E a eleição sequer entrou na reta final.
INDIGNAÇÃO
Falta aproximadamente um mês para o primeiro turno. Até lá, ainda haverá matérias, documentos, vazamentos, denúncias e revelações suficientes para alimentar a indústria nacional da indignação. O problema é que já sabemos como termina. Virá o próximo escândalo. E, quando ele chegar, o anterior será apenas lembrança.
BRECHA
Bruno Bolsonaro Scheid não perdeu tempo. Bastou perceber a crise que voltou a cercar o Supremo Tribunal Federal para enxergar aquilo que político experiente costuma procurar em período eleitoral: uma brecha. E, de preferência, uma brecha com holofotes. O candidato do PL ao Senado já anunciou que, eleito, pretende se habilitar para relatar eventual processo de impeachment contra Alexandre de Moraes e promete, sem muita sutileza, pesar a mão para retirar o ministro da Suprema Corte.
 
DEGOLA
Pode ser exagero. Pode ser oportunismo. Pode ser uma promessa feita para agradar à arquibancada bolsonarista. Cada um dará o nome que quiser. O fato é que Bruno Bolsonaro percebeu antes de seu principal concorrente no PL que existe um assunto com enorme potencial eleitoral. As notícias envolvendo supostos diálogos entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, além das suspeitas relacionadas a contratos envolvendo o escritório de advocacia da esposa do ministro, colocaram novamente o Supremo no centro de uma discussão política  que ultrapassa a bolha bolsonarista. As ruas estão em ebulição contra Moraes,  e ele tem que ficar em alerta para estancar a crise  porque povo na rua é certeza de degola.
 
SILÊNCIO
Há no eleitorado uma percepção crescente de que Alexandre de Moraes ultrapassou os limites que deveriam separar Judiciário, investigação e política. Bruno entendeu que explorar essa percepção pode render votos. E não está disposto a deixar o assunto esfriar. Enquanto isso, Fernando Máximo parece ter tomado literalmente uma touca do colega de disputa. Justamente quando o adversário encontrou uma bandeira capaz de mobilizar seu eleitorado e até conversar com segmentos fora do bolsonarismo mais ortodoxo, Máximo permanece excessivamente discreto. Na política, silêncio também é uma escolha. Às vezes prudência. Às vezes falta de percepção.
 
ESTRATÉGIA
Bruno, pelo menos, percebeu a oportunidade. Está transformando a crise do Supremo em discurso de campanha e tentando ocupar um território que, até aqui, parecia naturalmente reservado ao PL. Fernando Máximo pode até discordar da estratégia. Mas há um problema mais elementar: enquanto pensa, Bruno avança.
E eleição para o Senado não costuma premiar quem chega depois para explicar por que não chegou antes. Este cabeça chata conseguiu dar uma olhada em pesquisas internas que não são publicada e confirmou o que sempre avaliou da campanha senatorial de que surpresas podem ocorrer mais uma vez.
 
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