RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.

RESENHA POLITICA- POR ROBSON OLIVEIRA


COMEÇOU
As campanhas finalmente ganharam as ruas, com adesivaços, carreatas, discursos e aquela tradicional procissão de candidatos distribuindo abraços como se fossem santinhos. O eleitor, porém, parece ter adotado outra estratégia: observa, compara e deixa o tempo passar. Afinal, promessa de melhorar saúde, educação e segurança já virou patrimônio imaterial das eleições. Até agora, quase todos falam a mesma língua - e o eleitor ainda procura alguém que diga alguma coisa diferente.
 
COMUNIÇÃO
No Governo, Adailton Fúria vem construindo uma presença digital bastante própria. Sua comunicação é direta, com forte exposição pessoal e sem excesso de intermediários. É uma estratégia que busca transformar candidato em conversa, não em produto embalado por agência. A pesquisa Real Time Big Data de julho captou Fúria em 28%, atrás de Marcos Rogério, mas à frente de Hildon Chaves e Expedito Neto. É fotografia, não sentença.
 
NATURALIDADE
Hildon Chaves, que vinha patinando no ambiente digital, começa a aparecer com mais naturalidade. A aposta é apresentar realizações das gestões pública e privada numa linguagem menos burocrática, especialmente para o eleitor jovem. O marqueteiro Tônico conhece Rondônia desde criança: passou parte da infância no Estado, mudou-se para Brasília e construiu carreira no marketing. É filho do jornalista Sérgio Botelho, velho conhecido deste cabeça-chata, que dirigiu a comunicação da Assembleia Legislativa na gestão Sidney Guerra e escreveu para o Guaporé, Tribuna e O Estadão do Norte. Política também é feita de memória - e de memória jornalística.
 
LEVEZA
Marcos Rogério entra na disputa carregando o recall da eleição de 2022, quando chegou ao segundo turno contra Marcos Rocha. Reformulou a equipe e já há sinais de mudança na comunicação. Ainda falta, porém, aquela leveza que o ambiente digital exige. Sua principal ferramenta continua sendo a capacidade de argumentação, mas é também seu passivo uma vez que ao expressar posições o faz sem carisma e empatia . Num universo em que muitos candidatos parecem ter terceirizado até a própria personalidade, não é pouca coisa. Falta leveza.
 
GOLPISTA
Expedito Neto começou a campanha sob uma nuvem que não estava no roteiro. A intervenção no PSB de Rondônia e as articulações em Brasília para reorganizar o partido provocaram reação interna e abriram uma crise política justamente no momento em que o candidato deveria ampliar pontes no campo da esquerda. O problema é que política costuma cobrar juros quando alguém tenta chegar ao destino pela estrada vicinal. Em vez de começar agregando, Neto começa explicando. E suas aparições na mídia digital é rara e quando mostra a cara o faz de forma raivosa e agressiva como se a conversão a esquerda exija mudar apenas o tratamento.
 
ENTREGAS
No Senado, Sílvia Cristina apresenta uma comunicação digital mais objetiva, concisa e assentada em entregas. A estratégia é mostrar obra feita, atuação parlamentar e resultados, inclusive na área da saúde, onde sua relação com o Hospital de Amor lhe deu uma bandeira reconhecida para além do próprio grupo político. A presença na mídia digital surpreende pela finalização e pela naturalidade com que aborda as questões de interesse de Rondônia. Senador, antes de tudo, exige do candidato um perfil mais apurado que conecte com o eleitor de forma contemporânea, ressaltando a qualidade do candidato como um obreiro rondoniense.
 
TOUQUINHA
Fernando Máximo, deputado mais votado na eleição anterior, não reproduz no digital a mesma intensidade de Sílvia Cristina, mas tem uma candidatura estruturada e competitiva. Explora o eleitorado evangélico, ideológico e carrega uma marca própria construída na política e na saúde. Não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia. Agora, sem a estrutura que lhe catapultou a Câmara Federal precisa consolidar sua a liderança que ainda é superficial. Embora forte, não é imbatível numa eleição com bons concorrentes. A touca, indumentária que lhe caracterizou na Casa Baixa, vira alegoria carnavalesca para um membro da Câmara Alta.  
 
EXTREMO
Bruno Scheid escolheu outro caminho. É, entre os candidatos ao Senado, um dos que assumem de maneira mais explícita uma comunicação ideológica. Sua campanha conversa diretamente com a bolha bolsonarista, com posições duras contra o STF e contra o petismo. Não tenta agradar a todos. Tenta falar com os seus - e transformar identidade política em voto. É uma estratégia legítima de campanha, sobretudo numa eleição em que o eleitorado ideológico continua sendo uma fatia relevante. Mas é uma estratégia arriscada porque tende a se isolar na bolha. Apesar de se esmerar para abordar questões políticas mais profundas. O discurso raivoso tem prevalecido.
 
ABAFANDO
Mariana Carvalho ainda conserva capilaridade política e eleitoral, apesar das derrotas anteriores. Vinha reconstruindo espaços quando surgiu o episódio envolvendo o irmão, deputado Maurício Carvalho, e a apreensão de dinheiro pela Polícia Federal. A família tratou de colocar panos quentes, mas internet não é panela de pressão: não aceita tampa. O assunto continua produzindo comentários e cobranças nas redes. Politicamente, a candidatura permanece de pé, mas o episódio entrou no inventário da campanha. E pode atrapalhar. Esta campanha parecia estar na sua medida embora o entorno da campanha sempre atrapalha a candidatura na reta final. Ao que parece, vai repetir os mesmos erros.
 
ORFANDADE
Acir Gurgacz voltou ao jogo depois de decisão liminar do TSE que suspendeu os efeitos da decisão do TRE-RO e permitiu o registro de sua candidatura enquanto o recurso é analisado. A questão jurídica, portanto, ainda não é página virada - mas obteve vitórias judiciais robustas . No campo eleitoral, Acir tenta ocupar um espaço à esquerda sem vestir integralmente a camiseta ideológica. Quer o voto petista sem precisar usar o manequim vermelho que caracteriza o PT e sabe que para aumentar suas chances têm que buscar apoio do centro e os órfãos do Confucio Moura.
 
FORMULA
Começou, contudo, com uma comunicação bastante convencional, quase como se 2018 ainda estivesse esperando a próxima inserção. O roteiro é conhecido, a postura é mais conservadora e a simpatia – material raro no candidato -  é trabalhada como desafio eleitoral . No contato pessoal, porém, Acir sempre foi mais reservado. Empatia não se encomenda em agência. O curioso desta eleição é que ninguém parece ter descoberto ainda a fórmula para fazer o eleitor sair da arquibancada. As campanhas estão na rua, mas a eleição ainda não entrou inteiramente na cabeça do eleitor. E isso muda tudo.
 
INDAGANDO
Adesivaço produz fotografia. Jingle produz barulho. E promessa de melhorar saúde, educação e segurança já vem de fábrica. A eleição começa de verdade quando os candidatos forem obrigados a responder uma pergunta simples e incômoda: o que exatamente você fará que o outro não fará? Até agora, essa resposta ainda está em falta. E talvez seja justamente aí que a campanha comece a ficar interessante. Há outros concorrentes que ainda não estão no radar da eleição e no decorrer da campanha podem se sobressair. Embora exista espaço concreto para surpresas. Por enquanto.
 
ERRO
Alguns dirigentes petistas já perceberam o tamanho da trapalhada. Ao condenarem a intervenção que desmontou as candidaturas de Samuel Costa ao governo e de Neidinha Suruí ao Senado pelo PSB, reconheceram o óbvio: a operação não ajuda a esquerda. Ao contrário, produz desconfiança, revolta e um desgaste político absolutamente desnecessário. Mas é preciso ir além.
 
INTERVENÇÃO
As articulações feitas em Brasília para desmontar o diretório do PSB de Rondônia e forçar o partido a apoiar a candidatura de Expedito Netto ao governo foram uma rasteira política. E, pelo relato feito ao jornalista pelo próprio presidente estadual do PSB, Vinícius Miguel, há nome e sobrenome por trás da operação: Expedito Netto.
 
PRESSÃO
Não é, portanto, uma intervenção que caiu do céu por determinação burocrática de Brasília. Segundo Vinícius, Netto telefonou para ele na última quinta-feira, numa conversa áspera, e deixou claro que vinha pressionando a direção nacional do PSB para intervir no diretório de Rondônia e retirar do partido o direito de sustentar sua própria candidatura ao governo.
 
PRESSÃO
É uma maneira peculiar de construir alianças: primeiro se tenta convencer o adversário; se não funcionar, procura-se Brasília. Netto fez política como aprendeu a fazer: sorrateiramente, nos bastidores e atropelando decisões internas quando elas não coincidem com sua vontade. Democracia partidária, nesse caso, parece funcionar apenas quando produz o resultado desejado.
 
SUICÍDIO
O problema é que a rasteira pode ter se transformado num tiro no próprio pé.
A repercussão negativa foi enorme. A intervenção não eliminou o problema político; criou outro, muito maior. Em vez de aparecer como candidato capaz de construir uma frente de esquerda, Netto passou a ser associado à tentativa de destruir a autonomia de um partido aliado para abrir caminho à própria candidatura. É uma péssima estreia para quem pretende pedir voto.
 
PERDA
Samuel Costa e Neidinha Suruí podem até ter perdido suas candidaturas, mas o episódio lhes deu uma coisa que nenhum marqueteiro fabrica com facilidade: solidariedade política. E Netto ganhou exatamente o contrário. Desconfiança.
 
NOVIÇO
O mais curioso é que Expedito Netto não chegou ao campo da esquerda depois de uma longa trajetória de militância petista. Sua história política foi construída em outra trincheira. Foi deputado pelo PSD, circulou pelo governo federal e somente depois desembarcou no PT para assumir a candidatura ao governo de Rondônia.
Nada impede alguém de mudar de posição política. A política brasileira, aliás, já transformou a conversão ideológica numa atividade quase industrial.
 
IMPOSIÇÃO
Mas há diferença entre mudar de partido e levar para dentro da esquerda os velhos métodos de fazer política. É aí que mora o problema. Netto parece não compreender - ou simplesmente não se importar - que partidos possuem diretórios, militantes, reuniões, deliberações e decisões internas. Para ele, aparentemente, o que interessa é o resultado. Se a decisão coletiva coincide com sua vontade, ótimo. Se não coincide, procura-se outro caminho.
 
GOLPE
Brasília, neste episódio, virou a velha porta dos fundos da política brasileira. E a esquerda, que costuma discursar contra esse tipo de golpe, agora corre o risco de engolir a própria receita. A ironia é monumental: um candidato que precisa de uma intervenção nacional para retirar a candidatura de um partido aliado começa sua campanha com uma pergunta que dificilmente conseguirá evitar, por que não conseguiu construir o apoio dentro do próprio PSB? A resposta será ainda mais desconfortável se ficar demonstrado que foi necessário desmontar o diretório estadual para obter aquilo que não se conseguiu conquistar politicamente. Isso não é liderança. É atalho.
 
RASTEIRA
E atalho, em política, às vezes economiza distância e aumenta o caminho. Expedito Netto talvez tenha conseguido aquilo que queria em Brasília. Mas pode ter perdido algo muito mais importante em Rondônia: a confiança de quem deveria caminhar ao seu lado. A política é feita de alianças. E alianças exigem confiança. Quem começa a caminhada passando uma rasteira no companheiro pode descobrir, mais adiante, que ninguém quer lhe oferecer as costas.
 
 ESMAGANDO
O episódio também oferece ao PT um problema que não estava no roteiro. Netto terá de convencer a militância e o eleitorado de esquerda de que sua conversão é política, não apenas eleitoral. E terá de fazer isso carregando consigo uma trajetória que começou distante do petismo e um episódio recente que o coloca no centro de uma operação para esmagar a autonomia de um partido aliado.
 
EXPONDO
Na campanha, haverá entrevistas. E entrevista tem uma característica desagradável: perguntas não podem ser removidas por intervenção de diretório.
Netto poderá trocar o discurso, ajustar o figurino ideológico e ensaiar respostas. Mas não conseguirá apagar sua trajetória nem o episódio do PSB.
 
MARCADO
Por enquanto, a impressão que fica é de uma candidatura que começou tentando construir pontes e acabou incendiando a primeira delas. A rasteira de Brasília pode ter tirado Samuel Costa do caminho de Expedito Netto. Mas também colocou nas costas do candidato uma mochila política que ele carregará até a eleição. E o eleitor, como se sabe, costuma cobrar a conta - principalmente quando percebe que alguém tentou decidir por ele antes mesmo de pedir seu voto.
 
 
 
 
Veja Também:
Copied!

Últimas Notícias

  • RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.
  • RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.
  • RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.
  • RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.
  • RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.
  • RESENHA POLÍTICA-Fernando Máximo não repete a mesma empatia da eleição passada quando construiu a maior votação para deputado federal ancorado nas ações da pandemia.

Postar um comentário