RESENHA POLÍTICA- Com Lula, o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal

 RESENHA POLÍTICA- POR ROBSON OLIVEIRA


 
VIRADA
A inacreditável virada de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro foi espetacular. A diferença superior a dois milhões de votos na apuração final dimensiona uma vitória que contrariou expectativas e expôs o erro de quem imaginava que o resultado do primeiro turno fosse definitiva. Depois de começar o segundo turno atrás do adversário, Lula voltou às ruas, recuperou o protagonismo e construiu uma onda popular que poucos conseguiram antecipar.
 
AMÁLGAMA
Havia anos não se via mobilização popular tão intensa em torno de uma campanha presidencial. Jovens arrastaram idosos, militantes veteranos reencontraram o entusiasmo e diferentes gerações se uniram em torno de uma mesma candidatura. Foi uma amálgama política que transformou a desvantagem inicial em uma vitória histórica.
 
DIGITAL
Um dos protagonistas dessa reação foi o deputado André Janones, cuja estratégia digital enfrentou resistências dentro do próprio campo lulista. A intelectualidade petista, frequentemente desconfiada de quem não pertence ao seu círculo de certezas, demorou a compreender que as redes sociais já não eram mero acessório eleitoral. Eram campo de batalha. Quando percebeu isso, a campanha incorporou a mobilização digital, que ajudou a arregimentar milhões de apoiadores dispostos a militar pela eleição de Lula.
 
PREÇO
A virada também foi alimentada pela adesão de antigos bolsonaristas, setores progressistas e eleitores que, sem necessariamente nutrir simpatia por Lula, enxergavam em Jair Bolsonaro o risco de um retrocesso político. Na outra trincheira, o excesso de confiança cobrou seu preço. A campanha de Bolsonaro entrou no segundo turno como se a eleição já estivesse decidida. Confundiu vantagem com destino e esqueceu que urna não assina contrato de fidelidade com ninguém.
 
MARCA
Lula, por sua vez, foi buscar nas ruas a força que lhe faltava. A mobilização popular, a articulação política e a ofensiva digital produziram uma combinação decisiva. Aos 81 anos, completados hoje, o presidente eleito alcançou uma vitória de enorme significado histórico, conquistando um terceiro mandato presidencial - o terceiro pelo voto direto - e ampliando sua marca na história republicana brasileira.
 
OFENSA
A legitimidade do resultado não depende do entusiasmo dos vencedores nem da resignação dos derrotados. Depende das urnas, da apuração e do reconhecimento institucional. E é justamente aí que a reação de Jair Bolsonaro se tornou politicamente preocupante. Ao lançar dúvidas sobre o processo eleitoral sem apresentar provas consistentes de fraude, repetiu uma tradição política na qual perder parece ser uma ofensa pessoal, e não uma possibilidade elementar da democracia.
 
RESULTADO
A alegação de que a demora na chegada de eleitores a locais de votação, especialmente em razão de operações de fiscalização nas estradas, comprometeria a eleição tampouco se sustentou por si só. Seria necessário demonstrar de que maneira esses episódios alteraram o resultado, e não apenas transformá-los em combustível para a suspeita. Embora a decisão de estender a votação seja polêmica e equivocada, não mudou nada a vontade do eleitor.
 
DUBIEDADE
A maioria dos líderes internacionais reconheceu a vitória de Lula, assim como partidos brasileiros de diferentes correntes políticas. Os extremistas continuaram a vociferar contra as urnas. É o expediente conhecido de quem invoca a liberdade quando está no palanque, mas desconfia da democracia quando o resultado não lhe convém.
 
INCONFORMISMO
Para esse segmento, a derrota nunca é eleitoral: é sempre uma conspiração. A realidade, porém, não costuma se curvar aos delírios de seus inconformados. A eleição terminou. O resultado foi proclamado pelas urnas, e o país precisa seguir adiante. Flávio Bolsonaro tem o direito de fazer oposição, fiscalizar o governo e disputar o futuro político do Brasil. O que não podia era pretender substituir votos por suspeitas e inconformismo por uma verdade paralela.
 
SOBERANIA
A democracia não exige que o derrotado goste do resultado. Exige apenas que o respeite. Porque eleição não é um jogo em que o vencedor é escolhido pelo orgulho dos candidatos, mas pela vontade soberana dos eleitores. E, naquela disputa, a vontade popular escreveu uma história que o bolsonarismo teria de aprender a ler, mesmo contra a própria vontade.
 
DISTENSÃO
Lamentavelmente, não há sinais de distensionamento no horizonte. A campanha que começou desenhando um segundo turno mais à direita acabou se deslocando para a esquerda à medida que os jovens tomaram as ruas e transformaram a eleição numa mobilização em defesa da democracia.
 
CONECTADO
Lula percebeu que ali está uma das chaves para enfrentar um Congresso majoritariamente conservador. Tentará preservar essa conexão com uma militância que, até pouco tempo, parecia adormecida. Mas convém distinguir as coisas: muitos dos que foram às ruas não têm vínculos ideológicos com o petismo. Mobilizaram-se porque enxergaram nos Bolsonaro uma ameaça à institucionalidade democrática.
 
LIMITE
O 8 de janeiro deixou marcas profundas, ainda que silenciosas, numa parcela expressiva da população que não flerta com aventuras golpistas. A democracia, afinal, não é patrimônio de partido algum. É o limite que separa a divergência política da barbárie institucional.
 
MOBILIZAÇÃO
No quarto mandato, Lula terá de manter seu exército popular mobilizado, não para transformar a política numa guerra permanente, mas para impedir que o país volte a flertar com uma crise institucional de consequências imprevisíveis. Parte dos congressistas foi eleita sob discursos extremistas e golpistas e poderá tentar inviabilizar o governo, ainda que o preço dessa irresponsabilidade seja cobrado da própria nação.
 
SENSATEZ
Em tempos de beligerância, a distinção seria o caminho mais sensato. O problema é que não há armistício à vista. Os dois lados continuam entrincheirados, cada qual convencido de que ceder significa perder a guerra. Como se não bastasse, o setor financeiro parece disposto a jogar gasolina no fogaréu.
 
ESPECULAÇÃO
A reação especulativa contra o real após o anúncio da vitória de Lula expôs, mais uma vez, a disposição de certos agentes de transformar a instabilidade política em oportunidade de lucro. O mercado não precisa gostar do presidente eleito, mas deveria compreender que especular contra a moeda nacional não é um esporte sem consequências. Quando a conta chega, raramente fica restrita aos especuladores.
 
CUSTO
O governo precisará agir com prudência, responsabilidade fiscal e capacidade de negociação. Um ajuste nas contas públicas será necessário, mas não poderá servir de pretexto para paralisar o país nem de instrumento para transferir aos mais vulneráveis o custo de toda a crise. A estabilidade econômica exigirá mais do que discursos e promessas: dependerá de decisões consistentes e de credibilidade.
 
EQUILÍBRIO
O quarto mandato de Lula começou politicamente antes da posse. Os desafios são enormes, e o risco de uma economia acuada pela incerteza não pode ser tratado como mera disputa de narrativas. Governar será, desde o primeiro dia, administrar conflitos sem permitir que eles consumam as condições necessárias para o crescimento.
 
ANTAGONISMO
O Brasil continuará dividido por muito tempo. A polarização não desaparecerá por decreto, tampouco pela simples vitória eleitoral de um dos lados. Será preciso que novas lideranças surjam, capazes de romper a dependência de uma política organizada em torno de antagonismos pessoais.
 
VITALICIEDADE
A era Lula caminha para seu capítulo final, embora o lulismo ainda deva permanecer forte e competitivo. O desafio do presidente será deixar um legado que sobreviva à sua liderança. Porque movimentos políticos que dependem eternamente de um único homem acabam descobrindo, tarde demais, que a história não oferece mandato vitalício a ninguém.
 
REALIDADE
Com a confirmação da vitória de Lula, é hora de o governador eleito Marcos Rogério concentrar suas energias nos problemas que herdará a partir de janeiro. Sem a garantia de apoio imediato do governo federal, Rondônia terá de enfrentar demandas históricas com recursos limitados e um governador em tempo integral, empenhado em entregar resultados, não apenas justificativas.
 
EXCESSOS
A revisão das tarifas de pedágio, prometida durante a campanha, tende a se tornar uma tarefa ainda mais espinhosa. Com Lula reeleito, a interlocução política ganha peso, sobretudo porque Marcos construiu sua trajetória como adversário visceral do presidente. Embora tenha afirmado ao nosso podcast que manterá uma relação institucional com o Planalto, a bancada federal de perfil majoritariamente radical à direita poderá transformar essa promessa em um exercício permanente de desequilíbrio. Basta um excesso ideológico para dinamitar pontes que o interesse público exige preservar.
 
PLANEJAMENTO
Marcos sabe que não será fácil responder às expectativas da população nas áreas de saúde e segurança. O eleitor não votou para assistir a uma sucessão de diagnósticos, mas para ver soluções. A herança administrativa não pode servir de salvo-conduto para a inércia, assim como a escassez orçamentária não absolve a falta de planejamento.
 
METAS
Os tradicionais cem dias de tolerância concedidos a um governante recém-empossado poderão ser bem mais curtos em Rondônia. Marcos precisará apresentar um plano emergencial, com prioridades claras, metas verificáveis e prazos para começar a enfrentar os problemas mais urgentes.
 
FICHA  
A eleição terminou. A retórica de campanha perdeu a validade no instante em que as urnas fecharam. Agora, o governador eleito terá de provar que sabe administrar além de combater adversários. Rondônia não precisa de mais um governo especialista em explicar por que não fez. Precisa de um governo capaz de fazer diferente da mesmice que vai sair de cena. Marcos tem talento para se sobressai, mas precisa agora olhar para Rondônia e esquecer o palco nacional que tanto usou para se projetar. É hora de cair a ficha  e baixar as armas.
 
 
 
Veja Também:
Copied!

Últimas Notícias

  •  RESENHA POLÍTICA- Com Lula,  o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal
  •  RESENHA POLÍTICA- Com Lula,  o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal
  •  RESENHA POLÍTICA- Com Lula,  o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal
  •  RESENHA POLÍTICA- Com Lula,  o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal
  •  RESENHA POLÍTICA- Com Lula,  o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal
  •  RESENHA POLÍTICA- Com Lula,  o governador eleito Marcos Rogério tem que concentrar suas energias, sem o apoio imediato do Governo Federal

Postar um comentário