RESENHA POLÍTICA-A saúde estadual agoniza com fornecedores sem receber, serviços essenciais sendo suspensos e o risco de hospitais entrarem em colapso.

 RESENHA POLÍTICA-POR ROBSON OLIVEIRA



 
CALOTE
A saúde de Rondônia já é, há algum tempo, a área mais crítica da administração estadual. Agora, a inadimplência do governo com a BIOPLUS acrescenta um ingrediente perigoso ao caos: a falta de pagamento de um serviço essencial de esterilização de instrumentais cirúrgicos. A empresa anunciou a suspensão das atividades por não suportar mais 20 meses de débitos. Quando o Estado não paga quem fornece um serviço indispensável, não é apenas o fornecedor que fica no prejuízo. É o paciente quem entra na fila da conta.
IRRESPONSABILIDADE
O problema é que esterilização não é um item periférico da saúde. Sem instrumental esterilizado, cirurgias não acontecem. E, se a paralisação se prolongar, o efeito dominó pode atingir hospitais inteiros, ampliando filas, cancelando procedimentos e empurrando as unidades para uma situação de colapso operacional. A gestão pública parece ter descoberto uma curiosa forma de economizar: deixa de pagar os insumos e depois descobre que não consegue realizar as cirurgias.
CAPACIDADE
A SESAU precisa explicar por que deixou acumular uma dívida de 20 meses e por que permitiu que uma empresa legalmente contratada para manter um serviço vital chegasse ao limite financeiro. Não basta falar em burocracia, empenho ou trâmites administrativos. Saúde não funciona com justificativas contábeis. Funciona com insumos, planejamento, pagamento e gestão. O que está em jogo agora é mais do que uma dívida: é a capacidade do governo de manter funcionando a estrutura hospitalar.
BOMBEIRO
E há ainda um personagem que precisa ser identificado nesse enredo: um burocrata sem competência na área, segundo relatos, que estaria emperrando o processo e criando dificuldades para a execução do contrato. Dificuldades, diga-se, curiosas. Não precisamos nesta área de incendiários, é preciso competência.
LABIRINTO
A fornecedora estaria sendo cobrada a fazer aquilo que não consta nas planilhas da licitação - portanto, algo fora do objeto contratado. Se a exigência não está no edital nem no contrato, a pergunta deixa de ser apenas administrativa: quem autorizou pedidos fora o objeto contratado? É justamente nesse tipo de labirinto burocrático que surgem as perguntas que a administração deveria responder antes que as consequências cheguem, novamente, ao paciente.
FARRA
A saúde estadual agoniza com fornecedores sem receber, serviços essenciais sendo suspensos e o risco de hospitais entrarem em colapso. Mas, curiosamente, dinheiro público não parece faltar para festa. Publicação oficial da Sejucel mostra a destinação de R$ 2.498.335,00, por meio de emenda parlamentar, para a realização da 37ª Expoagro de Rolim de Moura. O recurso foi repassado à Associação Rural de Rolim de Moura para bancar o evento. A festa, que reúniu grandes atrações nacionais, tem como presidente de honra o ex-governador e ex-senador Ivo Cassol, conforme divulgado pela própria organização.
PRIORIDADE
A contradição dispensa maiores explicações. Enquanto a BIOPLUS suspende a esterilização de instrumentos cirúrgicos depois de acumular, segundo a empresa, 20 meses sem receber do Estado, quase R$ 2,5 milhões são destinados a uma festa agropecuária. Não se discute aqui a importância da Expoagro para Rolim de Moura ou para a economia regional. Discute-se prioridade. É difícil explicar ao paciente que aguarda uma cirurgia por que faltam recursos para manter um serviço hospitalar básico, mas há quase R$ 2,5 milhões disponíveis para rodeio, shows e entretenimento.
ESCÁRNIO
E há uma coincidência política que merece ser registrada, não escondida: os políticos estiveram em peso na Expoagro. O dinheiro é de emenda parlamentar e a destinação está formalizada em publicação oficial, portanto não há, por si só, ilegalidade a apontar. Mas política também se faz de escolhas - e escolhas revelam prioridades. Gastar uma fortuna numa única festa de peão, enquanto a saúde estadual agoniza, é um escárnio.  
VERGONHA
Quando a saúde deixa de pagar quem esteriliza o instrumental que entra no corpo do paciente, enquanto o poder público financia uma festa milionária, fica difícil convencer a população de que o problema é apenas falta de dinheiro. Talvez seja falta de prioridade. Ou, pior, excesso de prioridades eleitorais onde deveria existir apenas uma: a vida do cidadão.

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